Glaucia Santana
Tecnologia · Liderança · Transformação
Mulheres · Tecnologia · Liderança

Mulheres na tecnologia: não basta um lugar à mesa

Não queremos somente ser convidadas a ocupar espaços. Queremos ter voz, participar das decisões e ajudar a construir a própria mesa.

Por Glaucia Santana · 21 de agosto de 2026
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Quatro mulheres reunidas no Jantar Escandinavo promovido pela Sinch
Uma noite de encontros, inspiração e potência feminina no Jantar Escandinavo promovido pela Sinch.

No dia 18 de julho, participei do Jantar Escandinavo promovido pela Sinch, ao lado de mulheres executivas que atuam em grandes empresas no Brasil.

Foi uma noite de encontros, trocas e reflexões importantes. Tive a alegria de compartilhar essa experiência com mulheres espetaculares, entre elas Jaqueline Silva e Flávia Fontinhas, do Familhão, profissionais do time da Sinch, incluindo Evelyn Araújo, e tantas outras mulheres inspiradoras.

A palestra de Amanda Graciano nos convidou a reconhecer nossa força, nosso valor e a importância das mulheres na construção do futuro.

Saí daquele encontro com uma certeza: precisamos falar mais sobre a presença feminina na tecnologia. Não apenas sobre os desafios que enfrentamos, mas sobre tudo o que já construímos e continuamos construindo.

A tecnologia também tem nome de mulher

Quando estudamos a história da tecnologia, muitas vezes encontramos uma narrativa predominantemente masculina. Mas as mulheres sempre estiveram presentes, criando soluções, escrevendo códigos e transformando ideias em avanços capazes de mudar o mundo.

Ada Lovelace enxergou, ainda no século XIX, que uma máquina poderia ir além dos cálculos matemáticos. Matemática e pioneira da computação, tornou-se uma das figuras mais importantes da história da programação.

Décadas depois, seis mulheres foram responsáveis por programar o ENIAC, um dos primeiros computadores eletrônicos programáveis de uso geral. Elas realizaram esse trabalho quando ainda não existiam linguagens de programação ou manuais que lhes ensinassem o caminho. Precisaram compreender a arquitetura da máquina e desenvolver novas formas de programá-la.

Hedy Lamarr, conhecida mundialmente como atriz, também foi inventora. Ao lado de George Antheil, criou um sistema de salto de frequência que ajudou a abrir caminho para tecnologias modernas de comunicação sem fio, como Wi-Fi, Bluetooth e GPS.

Nós não estamos chegando agora à tecnologia. Nós sempre estivemos aqui, embora nem sempre nossos nomes tenham recebido o reconhecimento merecido.

A corrida não começa do mesmo lugar

Também precisamos reconhecer que mulheres e homens nem sempre percorrem a mesma estrada profissional. E, mesmo quando percorrem, frequentemente carregam pesos diferentes.

Durante muito tempo, o profissional considerado ideal foi aquele disponível para o trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana. Mas essa dedicação quase irrestrita raramente acontece sem uma estrutura de apoio.

Por trás de muitos homens que puderam concentrar toda a sua energia na carreira, havia, e ainda há, uma mulher cuidando da casa, dos filhos, dos familiares, da agenda e de inúmeras responsabilidades invisíveis que mantêm a vida funcionando.

Enquanto isso, muitas mulheres constroem suas carreiras realizando uma jornada dupla ou até tripla. Trabalham, estudam, lideram equipes e entregam resultados, mas continuam sendo responsabilizadas pela maior parte do cuidado e da organização familiar.

Não se trata de falta de ambição, competência ou preparo. A corrida simplesmente é mais pesada para quem precisa atravessá-la carregando responsabilidades que muitas vezes nem sequer são reconhecidas como trabalho.

Essa desigualdade também se manifesta na carga mental: lembrar consultas, organizar horários, antecipar necessidades, acompanhar a vida escolar dos filhos e garantir que tudo continue funcionando.

Empoderamento feminino não pode significar ensinar as mulheres a suportar ainda mais peso. Precisa significar distribuir esse peso de maneira justa.

Quando nossa própria voz aprende a nos diminuir

Existe ainda uma barreira menos visível, construída depois de anos ouvindo que precisamos estar mais preparadas, falar com mais cuidado e provar continuamente que merecemos estar ali. Em algum momento, essa cobrança externa pode ganhar a nossa própria voz.

A autossabotagem aparece quando recusamos uma oportunidade por acreditar que ainda não sabemos o suficiente, quando diminuímos uma conquista chamando-a de sorte, quando pedimos desculpas antes mesmo de apresentar uma ideia ou quando permanecemos em silêncio mesmo tendo algo importante a dizer.

Ela também aparece no perfeccionismo. Enquanto algumas pessoas se candidatam a uma posição atendendo parte dos requisitos, muitas mulheres esperam cumprir todos eles e ainda procuram uma validação adicional. Não porque lhes falte capacidade, mas porque aprenderam que o erro lhes custa mais caro.

É importante dizer que autossabotagem não nasce no vazio. Ela é frequentemente uma resposta a ambientes que questionam a competência feminina, interrompem nossas falas, apropriam-se de nossas ideias ou avaliam com réguas diferentes comportamentos semelhantes. Reconhecer esses padrões não significa culpar a mulher. Significa devolver a ela a possibilidade de interrompê-los.

Reconhecer nosso valor também é uma prática

Valorização não é arrogância. É conseguir olhar para a própria trajetória com honestidade e reconhecer o conhecimento, a coragem e o trabalho que nos trouxeram até aqui.

Precisamos aprender a nomear nossas conquistas sem diminuí-las, negociar sem pedir desculpas, receber elogios sem desviá-los e ocupar uma conversa sem transformar cada frase em um pedido de permissão.

Também precisamos registrar resultados, construir redes de confiança, pedir remuneração e reconhecimento compatíveis com nossas entregas e apoiar outras mulheres quando suas contribuições não estiverem sendo vistas. A valorização individual ganha força quando se torna coletiva.

Não precisamos esperar que alguém reconheça nosso valor para começar a reconhecê-lo em nós mesmas. Mas as organizações também precisam transformar esse reconhecimento em oportunidades, remuneração, promoção e poder real.

Não basta ser convidada para a festa

Costuma-se dizer que diversidade é ser convidada para a festa, enquanto inclusão é ser chamada para dançar.

No mundo da tecnologia, podemos avançar ainda mais: não queremos apenas um convite, uma cadeira ou uma presença simbólica. Queremos ter voz, participar das decisões e ajudar a construir a própria mesa.

A verdadeira inclusão acontece quando mulheres deixam de ser apenas contabilizadas e passam a ser ouvidas. Quando podem apresentar ideias, assumir riscos, errar, aprender, liderar e transformar.

Não se trata somente de estar presente, mas de possuir poder real para influenciar o que será construído e para quem será construído.

Representatividade transforma possibilidades

Quando uma mulher ocupa uma posição de liderança em tecnologia, sua presença vai além de uma conquista individual. Ela amplia o imaginário de outras mulheres.

Quando vemos uma desenvolvedora, uma cientista de dados, uma engenheira, uma pesquisadora, uma fundadora ou uma executiva tomando decisões estratégicas, começamos a perceber que aquele espaço também pode ser nosso.

Por isso, representatividade importa. Mas a presença, sozinha, não basta. Precisamos criar ambientes nos quais as mulheres possam participar das decisões, apresentar ideias, assumir riscos, errar, aprender, liderar e crescer.

Um encontro de mulheres, em um espaço criado por uma mulher

Havia outro detalhe muito simbólico naquela noite: o próprio espaço que nos recebeu também carrega a força do empreendedorismo feminino.

O jantar aconteceu no restaurante O Escandinavo, em Pinheiros, fundado e comandado pela chef Denise Guerschman. Depois de viver quase uma década entre a Noruega e a Suécia, Denise voltou ao Brasil e transformou sua experiência em um negócio que aproxima a cultura nórdica da identidade brasileira.

Não poderia haver cenário mais coerente: uma empresa promovendo o encontro, uma mulher conduzindo a reflexão, mulheres executivas compartilhando experiências e outra mulher recebendo todas em seu próprio empreendimento.

Grupo de mulheres participantes do Jantar Escandinavo
Conexões que fortalecem trajetórias, ampliam vozes e ajudam a construir uma tecnologia mais diversa.

Para continuar a conversa

A palestra também deixou indicações de leitura para quem deseja aprofundar a reflexão sobre carreira, liderança, inovação e presença feminina.

Livros indicados sobre mulheres, liderança e tecnologia
Literaturas indicadas para continuar a conversa.

O futuro da tecnologia precisa de nós

Tecnologia não é somente código, máquinas ou inteligência artificial. Tecnologia é uma construção humana.

Ela carrega as escolhas, experiências e perspectivas de quem participa de sua criação. Quando mulheres com trajetórias diversas contribuem para esse processo, desenvolvemos produtos mais inclusivos, fazemos perguntas melhores e encontramos soluções capazes de representar uma sociedade muito mais plural.

Nossa presença na tecnologia não é uma concessão. É uma necessidade.

Somos valiosas. Somos criativas. Somos estrategistas, inovadoras e guerreiras. Somos parte da história da tecnologia, mesmo quando essa história não contou nossos nomes com o destaque que merecíamos.

Que possamos reconhecer quem veio antes de nós, celebrar quem caminha ao nosso lado e criar oportunidades para quem ainda está começando. Porque o futuro da tecnologia será mais humano, inovador e transformador quando for construído por todas nós.

Referências