No dia 18 de julho, participei do Jantar Escandinavo promovido pela Sinch, ao lado de mulheres executivas que atuam em grandes empresas no Brasil.
Foi uma noite de encontros, trocas e reflexões importantes. Tive a alegria de compartilhar essa experiência com mulheres espetaculares, entre elas Jaqueline Silva e Flávia Fontinhas, do Familhão, profissionais do time da Sinch, incluindo Evelyn Araújo, e tantas outras mulheres inspiradoras.
A palestra de Amanda Graciano nos convidou a reconhecer nossa força, nosso valor e a importância das mulheres na construção do futuro.
Saí daquele encontro com uma certeza: precisamos falar mais sobre a presença feminina na tecnologia. Não apenas sobre os desafios que enfrentamos, mas sobre tudo o que já construímos e continuamos construindo.
A tecnologia também tem nome de mulher
Quando estudamos a história da tecnologia, muitas vezes encontramos uma narrativa predominantemente masculina. Mas as mulheres sempre estiveram presentes, criando soluções, escrevendo códigos e transformando ideias em avanços capazes de mudar o mundo.
Ada Lovelace enxergou, ainda no século XIX, que uma máquina poderia ir além dos cálculos matemáticos. Matemática e pioneira da computação, tornou-se uma das figuras mais importantes da história da programação.
Décadas depois, seis mulheres foram responsáveis por programar o ENIAC, um dos primeiros computadores eletrônicos programáveis de uso geral. Elas realizaram esse trabalho quando ainda não existiam linguagens de programação ou manuais que lhes ensinassem o caminho. Precisaram compreender a arquitetura da máquina e desenvolver novas formas de programá-la.
Hedy Lamarr, conhecida mundialmente como atriz, também foi inventora. Ao lado de George Antheil, criou um sistema de salto de frequência que ajudou a abrir caminho para tecnologias modernas de comunicação sem fio, como Wi-Fi, Bluetooth e GPS.
Nós não estamos chegando agora à tecnologia. Nós sempre estivemos aqui, embora nem sempre nossos nomes tenham recebido o reconhecimento merecido.
A corrida não começa do mesmo lugar
Também precisamos reconhecer que mulheres e homens nem sempre percorrem a mesma estrada profissional. E, mesmo quando percorrem, frequentemente carregam pesos diferentes.
Durante muito tempo, o profissional considerado ideal foi aquele disponível para o trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana. Mas essa dedicação quase irrestrita raramente acontece sem uma estrutura de apoio.
Por trás de muitos homens que puderam concentrar toda a sua energia na carreira, havia, e ainda há, uma mulher cuidando da casa, dos filhos, dos familiares, da agenda e de inúmeras responsabilidades invisíveis que mantêm a vida funcionando.
Enquanto isso, muitas mulheres constroem suas carreiras realizando uma jornada dupla ou até tripla. Trabalham, estudam, lideram equipes e entregam resultados, mas continuam sendo responsabilizadas pela maior parte do cuidado e da organização familiar.
Não se trata de falta de ambição, competência ou preparo. A corrida simplesmente é mais pesada para quem precisa atravessá-la carregando responsabilidades que muitas vezes nem sequer são reconhecidas como trabalho.
Essa desigualdade também se manifesta na carga mental: lembrar consultas, organizar horários, antecipar necessidades, acompanhar a vida escolar dos filhos e garantir que tudo continue funcionando.
Empoderamento feminino não pode significar ensinar as mulheres a suportar ainda mais peso. Precisa significar distribuir esse peso de maneira justa.
Quando nossa própria voz aprende a nos diminuir
Existe ainda uma barreira menos visível, construída depois de anos ouvindo que precisamos estar mais preparadas, falar com mais cuidado e provar continuamente que merecemos estar ali. Em algum momento, essa cobrança externa pode ganhar a nossa própria voz.
A autossabotagem aparece quando recusamos uma oportunidade por acreditar que ainda não sabemos o suficiente, quando diminuímos uma conquista chamando-a de sorte, quando pedimos desculpas antes mesmo de apresentar uma ideia ou quando permanecemos em silêncio mesmo tendo algo importante a dizer.
Ela também aparece no perfeccionismo. Enquanto algumas pessoas se candidatam a uma posição atendendo parte dos requisitos, muitas mulheres esperam cumprir todos eles e ainda procuram uma validação adicional. Não porque lhes falte capacidade, mas porque aprenderam que o erro lhes custa mais caro.
É importante dizer que autossabotagem não nasce no vazio. Ela é frequentemente uma resposta a ambientes que questionam a competência feminina, interrompem nossas falas, apropriam-se de nossas ideias ou avaliam com réguas diferentes comportamentos semelhantes. Reconhecer esses padrões não significa culpar a mulher. Significa devolver a ela a possibilidade de interrompê-los.
Reconhecer nosso valor também é uma prática
Valorização não é arrogância. É conseguir olhar para a própria trajetória com honestidade e reconhecer o conhecimento, a coragem e o trabalho que nos trouxeram até aqui.
Precisamos aprender a nomear nossas conquistas sem diminuí-las, negociar sem pedir desculpas, receber elogios sem desviá-los e ocupar uma conversa sem transformar cada frase em um pedido de permissão.
Também precisamos registrar resultados, construir redes de confiança, pedir remuneração e reconhecimento compatíveis com nossas entregas e apoiar outras mulheres quando suas contribuições não estiverem sendo vistas. A valorização individual ganha força quando se torna coletiva.
Não precisamos esperar que alguém reconheça nosso valor para começar a reconhecê-lo em nós mesmas. Mas as organizações também precisam transformar esse reconhecimento em oportunidades, remuneração, promoção e poder real.
Não basta ser convidada para a festa
Costuma-se dizer que diversidade é ser convidada para a festa, enquanto inclusão é ser chamada para dançar.
No mundo da tecnologia, podemos avançar ainda mais: não queremos apenas um convite, uma cadeira ou uma presença simbólica. Queremos ter voz, participar das decisões e ajudar a construir a própria mesa.
A verdadeira inclusão acontece quando mulheres deixam de ser apenas contabilizadas e passam a ser ouvidas. Quando podem apresentar ideias, assumir riscos, errar, aprender, liderar e transformar.
Não se trata somente de estar presente, mas de possuir poder real para influenciar o que será construído e para quem será construído.
Representatividade transforma possibilidades
Quando uma mulher ocupa uma posição de liderança em tecnologia, sua presença vai além de uma conquista individual. Ela amplia o imaginário de outras mulheres.
Quando vemos uma desenvolvedora, uma cientista de dados, uma engenheira, uma pesquisadora, uma fundadora ou uma executiva tomando decisões estratégicas, começamos a perceber que aquele espaço também pode ser nosso.
Por isso, representatividade importa. Mas a presença, sozinha, não basta. Precisamos criar ambientes nos quais as mulheres possam participar das decisões, apresentar ideias, assumir riscos, errar, aprender, liderar e crescer.
Um encontro de mulheres, em um espaço criado por uma mulher
Havia outro detalhe muito simbólico naquela noite: o próprio espaço que nos recebeu também carrega a força do empreendedorismo feminino.
O jantar aconteceu no restaurante O Escandinavo, em Pinheiros, fundado e comandado pela chef Denise Guerschman. Depois de viver quase uma década entre a Noruega e a Suécia, Denise voltou ao Brasil e transformou sua experiência em um negócio que aproxima a cultura nórdica da identidade brasileira.
Não poderia haver cenário mais coerente: uma empresa promovendo o encontro, uma mulher conduzindo a reflexão, mulheres executivas compartilhando experiências e outra mulher recebendo todas em seu próprio empreendimento.

Para continuar a conversa
A palestra também deixou indicações de leitura para quem deseja aprofundar a reflexão sobre carreira, liderança, inovação e presença feminina.

- Como as mulheres chegam ao topo, de Sally Helgesen e Marshall Goldsmith;
- Brotopia, de Emily Chang;
- Faça acontecer, de Sheryl Sandberg;
- Executive Presence 2.0, de Sylvia Ann Hewlett.
O futuro da tecnologia precisa de nós
Tecnologia não é somente código, máquinas ou inteligência artificial. Tecnologia é uma construção humana.
Ela carrega as escolhas, experiências e perspectivas de quem participa de sua criação. Quando mulheres com trajetórias diversas contribuem para esse processo, desenvolvemos produtos mais inclusivos, fazemos perguntas melhores e encontramos soluções capazes de representar uma sociedade muito mais plural.
Nossa presença na tecnologia não é uma concessão. É uma necessidade.
Somos valiosas. Somos criativas. Somos estrategistas, inovadoras e guerreiras. Somos parte da história da tecnologia, mesmo quando essa história não contou nossos nomes com o destaque que merecíamos.
Que possamos reconhecer quem veio antes de nós, celebrar quem caminha ao nosso lado e criar oportunidades para quem ainda está começando. Porque o futuro da tecnologia será mais humano, inovador e transformador quando for construído por todas nós.
