Trabalho com tecnologia e lidero pessoas há muitos anos. Passei por bancos e empresas tradicionais de grande porte, onde a estrutura é robusta e o processo pesa. Passei por empresas de agilidade extrema, como o iFood, onde a velocidade é regra e o mercado não espera ninguém. Hoje tenho a honra de trabalhar no Familhão, uma empresa de grande impacto, onde lidero 53 pessoas entre back-end, front-end e mobile.
Em todos esses lugares, aprendi a mesma lição, de jeitos diferentes: a tecnologia é um pilar, mas é uma ferramenta. Ela existe para resolver problemas. Quem resolve os problemas, quem decide que problema vale a pena resolver e quem sustenta a solução quando ela quebra às três da manhã são pessoas.
O pilar pessoas é o que realmente move uma organização inteira. Sem as pessoas, a gente não constrói absolutamente nada.
Este artigo é sobre uma palavra que, na minha experiência, explica mais resultados do que qualquer framework: respeito.
Não é clichê. É o problema mais técnico que existe
"Pessoas em primeiro lugar" virou frase de parede de escritório. Por isso tanta gente revira os olhos quando escuta. Mas quero deixar claro: não é clichê. É uma constatação que a própria engenharia de software faz há quase 40 anos.
Em 1987, Tom DeMarco e Timothy Lister publicaram Peopleware, um dos livros mais citados da nossa área. A tese central é desconfortável para quem ama tecnologia: os grandes problemas do nosso trabalho não são tecnológicos, são sociológicos. Projetos raramente fracassam por causa da linguagem escolhida. Fracassam por comunicação ruim, expectativas desalinhadas, gente esgotada e gente que parou de se importar.
Os dados mais recentes confirmam a mesma coisa:
- Google, Projeto Aristóteles (2015). O Google estudou centenas de times para entender o que fazia um time ser eficaz. A conclusão: importa menos quem está no time e mais como o time trabalha junto. O fator número um foi segurança psicológica.
- DORA e o livro Accelerate (Forsgren, Humble e Kim, 2018). Anos de pesquisa com milhares de profissionais mostraram que cultura organizacional prevê desempenho de entrega de software. Culturas generativas, no modelo de Ron Westrum, entregam melhor do que culturas burocráticas ou de poder.
- Gallup. As pesquisas da Gallup sobre gestão apontam o gestor direto como o fator que mais explica a variação de engajamento de um time. As pessoas não se engajam com a empresa em abstrato. Se engajam com quem as lidera todos os dias.
Ou seja: cuidar de gente não é o lado "soft" da engenharia. É a variável que mais pesa no resultado.
A arquitetura muda. As pessoas permanecem
Já trabalhei com monolitos gigantes, com arquiteturas orientadas a serviços em N linguagens, com migrações que pareciam não ter fim. Agora vivemos a era da IA, em que assistentes escrevem código, revisam pull requests e aceleram entregas.
Tudo isso importa. Mas nenhuma dessas escolhas se sustenta sozinha.
Em 1968, Melvin Conway observou que os sistemas acabam espelhando a estrutura de comunicação das organizações que os constroem. A chamada Lei de Conway é um lembrete poderoso: a sua arquitetura é um retrato das suas relações. Times que não conversam geram serviços que não se integram. Times com medo geram sistemas defensivos, cheios de remendos que ninguém teve coragem de questionar.
Matthew Skelton e Manuel Pais levaram essa ideia adiante em Team Topologies (2019). Eles colocam a carga cognitiva das pessoas no centro do desenho organizacional. Um time sobrecarregado, sem fronteiras claras, não consegue ser dono de nada de verdade.
Com a IA, essa realidade fica ainda mais evidente. Quando a máquina gera código em segundos, o diferencial passa a ser o que só gente faz bem: julgamento, contexto de negócio, coragem de dizer "isso não está certo" e responsabilidade pelo que vai para produção. Uma ferramenta poderosa nas mãos de um time que não se sente seguro para questionar só produz erros mais rápido.
A tecnologia é o meio. As pessoas são o sistema que faz o meio funcionar.
Os cinco pilares do respeito na engenharia
Respeito não é ser simpática. É um conjunto de práticas concretas que, quando faltam, nenhuma arquitetura bonita compensa. Na minha jornada, cheguei a cinco.
1. Saber o que move cada pessoa
Daniel Pink, em Drive (2009), resume a motivação de trabalho intelectual em três forças: autonomia, maestria e propósito. Mas a proporção de cada uma muda de pessoa para pessoa. Uma engenheira quer se aprofundar em arquitetura. Outro quer liderar gente. Outra quer estabilidade porque está cuidando de alguém em casa.
Respeitar a individualidade começa por perguntar, ouvir e lembrar. Um 1:1 em que só se fala de status de tarefa é uma reunião de acompanhamento, não uma conversa sobre a pessoa.
2. Feedback frequente, honesto e cuidadoso
Kim Scott, em Radical Candor (2017), descreve o feedback ideal como a combinação de dois eixos: se importar pessoalmente e desafiar diretamente. Quem só se importa vira gestor que esconde problemas. Quem só desafia vira gestor agressivo. Respeito é fazer os dois ao mesmo tempo.
Ninguém merece descobrir na avaliação anual algo que poderia ter ouvido em uma conversa há seis meses.
3. Segurança psicológica
Amy Edmondson, professora de Harvard, definiu segurança psicológica como a crença compartilhada de que o time é um lugar seguro para assumir riscos interpessoais. Em The Fearless Organization (2018), ela mostra que times seguros não erram menos; eles falam mais sobre os erros, e por isso aprendem mais rápido.
Em engenharia, isso tem tradução direta: postmortems sem culpados, dúvidas feitas em público sem constrangimento, júnior podendo dizer que não entendeu o desenho da arquitetura.
4. Papéis e responsabilidades bem definidos
Ambiguidade é uma forma silenciosa de desrespeito. Quando ninguém sabe quem decide, as pessoas gastam energia em política em vez de gastar em produto. Camille Fournier, em The Manager's Path (2017), e Will Larson, em An Elegant Puzzle (2019), insistem no mesmo ponto: clareza de escopo, de expectativas e de critérios de crescimento é parte do trabalho do gestor, não um detalhe de RH.
Brené Brown sintetiza isso em Dare to Lead (2018) com uma ideia que adoto como regra: ser claro é ser gentil.
5. Gestores que definem boundaries
Respeito também é limite. É o gestor que protege o time de demandas que chegam sem prioridade. Que diz não para um prazo impossível antes que ele vire hora extra crônica. Que deixa claro o que é aceitável e o que não é em comportamento.
Lara Hogan, em Resilient Management (2019), lembra que o papel do gestor inclui criar estrutura para que o time não precise adivinhar onde estão as bordas. Sem boundaries, a gentileza vira omissão.
Carreira no ritmo da vida
Uma das coisas que mais me dão prazer como líder é adequar a carreira de cada pessoa ao momento de vida que ela está vivendo.
Carreira não é uma escada reta. Tem gente chegando de licença-maternidade ou paternidade. Tem gente terminando uma faculdade à noite. Tem gente que quer acelerar para Staff e gente que, por um período, precisa só de previsibilidade. Tratar todo mundo com a mesma régua parece justo, mas não é. Justiça é dar a cada pessoa o que ela precisa para crescer de forma sustentável.
Na prática, isso significa:
- Conversas de carreira separadas das conversas de entrega.
- Planos de desenvolvimento que a pessoa ajuda a escrever, e não apenas recebe.
- Trilhas técnicas e de gestão com o mesmo valor, para que ninguém precise virar gestor só para crescer.
- Flexibilidade real quando a vida aperta, sem que isso vire uma marca negativa na avaliação.
Quando a pessoa sente que a empresa respeita a fase que ela está vivendo, ela devolve isso em lealdade, em qualidade e em vontade de ficar.
Conversas difíceis em ambientes seguros
Existe um mito de que liderança respeitosa evita conflito. É o contrário. Quem respeita alguém tem a conversa difícil; quem não respeita deixa a pessoa errar sozinha até ser tarde demais.
O livro Crucial Conversations (Patterson, Grenny, McMillan e Switzler) mostra que as conversas mais importantes são justamente as de alto risco, opiniões divergentes e emoções fortes. O segredo não é suavizar a mensagem. É manter o ambiente seguro o bastante para que a mensagem possa ser ouvida.
Nas minhas conversas difíceis, procuro seguir alguns princípios:
- Separar a pessoa do comportamento. Falo do fato observado, não de rótulos.
- Começar pela intenção. Deixo claro que estou ali porque quero que a pessoa cresça.
- Ouvir antes de concluir. Muitas vezes o problema de entrega é um problema de vida, de contexto ou de papel mal definido.
- Sair com um combinado. Uma conversa difícil sem próximo passo vira só desconforto.
- Voltar ao assunto. Acompanhar mostra que a conversa foi séria, e que o cuidado também foi.
O objetivo de uma conversa difícil não é vencer. É buscar, juntos, um desafio melhor.
O que o NPS me ensinou
Na última avaliação aplicada onde trabalho, tive o grande prazer de receber um ótimo NPS do meu time. Não conto isso por vaidade. Conto porque, quando olhei para o resultado, a explicação coube em uma palavra: respeito.
Não foi um programa de benefícios nem um evento de integração. Foram centenas de pequenas decisões do dia a dia:
- O 1:1 que não foi desmarcado na semana de crise.
- O feedback dado na hora certa, em particular.
- O prazo renegociado antes de virar madrugada.
- A pergunta "como você está?" feita esperando a resposta de verdade.
- O reconhecimento público de quem segurou o incidente.
Respeito parece intangível, mas deixa rastros mensuráveis: engajamento, retenção, qualidade de entrega e confiança para inovar. O NPS foi só o termômetro. O que ele mediu foi a confiança construída ao longo de meses.
Engenharia com Propósito
Para mim, liderar com respeito é prazeroso. Amar o que faz, amar as pessoas e se interessar de verdade pelos problemas delas é o que me faz enxergar valor em cada software que entrego, em cada MVP, em cada feature.
Porque, por trás de sistemas, migrações e resultados, existe algo que nenhum dashboard captura por inteiro: o prazer de conviver, aprender e liderar gente de maneira respeitosa. Ouvindo. Tendo conversas difíceis em ambientes seguros. Buscando juntos o próximo desafio.
Isso é o que eu chamo de Engenharia com Propósito.
A tecnologia vai continuar mudando. Hoje é IA, amanhã será outra coisa. O que não muda é que todo sistema é feito por pessoas, para pessoas. E é por isso que eu acredito: as pessoas merecem uma liderança em respeito.
- Tom DeMarco e Timothy Lister, Peopleware: Productive Projects and Teams (1987).
- Melvin Conway, "How Do Committees Invent?" (1968), origem da Lei de Conway.
- Amy Edmondson, "Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams" (1999) e The Fearless Organization (2018).
- Google re:Work, Projeto Aristóteles (2015).
- Nicole Forsgren, Jez Humble e Gene Kim, Accelerate (2018).
- Ron Westrum, "A typology of organisational cultures" (2004).
- Gallup, State of the American Manager (2015).
- Matthew Skelton e Manuel Pais, Team Topologies (2019).
- Daniel Pink, Drive (2009).
- Kim Scott, Radical Candor (2017).
- Camille Fournier, The Manager's Path (2017).
- Will Larson, An Elegant Puzzle (2019).
- Lara Hogan, Resilient Management (2019).
- Brené Brown, Dare to Lead (2018).
- Kerry Patterson, Joseph Grenny, Ron McMillan e Al Switzler, Crucial Conversations (2002).